quinta-feira, 20 de outubro de 2011

No cume da minha aldeia


Hoje quando forem vinte e três horas vou descer a escada com as mãos enlameadas de sangue do cordeiro que matei. Vou descer às vinte e três horas em ponto e caminhar até ao cume da minha aldeia. Levarei comigo o alforge para ir dando comida aos fantasmas que habitam as ruas estreitas hoje e sempre, no lado lunar de cada um. Não vou ter medo. Planeei tudo isto com a minúcia de um cobarde e agora não me amedronto mais.
  
Irei.

Na estrada haverá uma mulher cujo clítoris floresce a cada noite como uma magnólia ainda menina. É uma Puta, dirão todos. Não é uma Puta, direi eu, é uma mulher cujo clítoris floresce a cada noite como uma magnólia ainda menina. Mais adiante verei uma casa iluminada e ouvirei gritos esvaídos de quem não teme a noite e se comporta como se todos tivessem pão. São as gerberas, muito rosadas, que apenas são admitidas nos lugares mais estonteantes. 

À meia-noite estarei por fim no cume da minha aldeia a tocar o sino e cantar desencantado o poeta, “E é tão lento o teu soar/Tão como triste da vida”.

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